CARISMA VICENTINO – 400 ANOS: itinerário para Educadores/as

Educação • 03/02/2017

SUBSÍDIO DE ESTUDO E REFLEXÃO PARA EDUCADORES/AS VICENTINOS/ASC

Ir. Raquel de Fátima Colet, FC

Pastoral Escolar Vicentina – Província de Curitiba

 

CARISMA VICENTINO – 400 ANOS:

Nas “idas e vindas” da Caridade, o encontro com Deus e com os Pobres.

 

“O que a Igreja espera de nós, não é um trabalho pessoal, mas a revitalização da primeira inspiração de nossos Santos Fundadores. Toda a tentativa de renovação ou de adaptação que não tivesse por ponto de partida o desejo de pôr em valor o espírito das origens seria expô-lo ao fracasso. Mas separar o espírito das formas que vieram a envolve-lo e descobrir como deve manifestar-se ao mundo atual, é este o verdadeiro trabalho a realizar”.

(Irmã Suzanne Guillemin, 1º de janeiro de 1965)

Apresentação

Como Família Vicentina, celebramos em 2017 os 400 anos de nosso carisma fundacional. Ele é para nós um dom e um compromisso, o modo como Deus nos convida a participar ativa e criativamente de Sua obra. Este carisma (charisma = graça) não é fruto dos esforços ou méritos de nossos Fundadores, tampouco nosso, mas é puramente graça divina, expressão da ação vivificante do Espírito na história que, em sua multiplicidade e gratuidade de dons, os distribui entre nós para o bem de todos/as (cf. 1 Cor 12, 11). Assim sendo, ao fazermos memória da trajetória do carisma ao longo dos séculos, não estamos a comemorar uma realidade estática e acabada, à qual nada mais pode ser acrescido, nem uma proposta que chegou a seu termo. Ao contrário, este ano jubilar nos dá a oportunidade de revisitar nossas origens, contemplar a vida e a obra daqueles/as que nos precederam, suas experiências de fé, suas percepções da vida e do mundo, e, em continuidade com essas intuições originárias, nos descobrir participantes de um projeto que está em plena construção. É o que nos recorda a expressão “idas e vindas”, tão própria de nossa história.

Os acontecimentos a serem rememorados neste ano estão ligados, sobretudo, a nosso fundador São Vicente de Paulo (1581-1660), tendo em vista a singularidade que o ano de 1617 representou para sua vida e missão. Contudo, na perspectiva acima acenada de que não se trata de um projeto pronto, nem de uma obra individual, propomos uma abordagem dos 400 anos na interface com outras pessoas e experiências, que foram dimensionando e enriquecendo o carisma ao longo da história. Para as Filhas da Caridade e colaboradores/as de suas frentes de ação, isso implica, necessariamente, em envolver nesta comemoração a pessoa e o pensamento de Santa Luísa de Marillac, que deu uma contribuição importantíssima para as iniciativas de Vicente. Com um foco ainda mais direcionado, somos convidados/as a refletir e dinamizar esse ano jubilar no âmbito da educação, que é para nós o ambiente epistêmico, relacional e prático em que vivemos e testemunhamos nosso carisma.

Neste sentido, como Educação Vicentina propomos para esse ano jubilar um itinerário de formação continuada e interdisciplinar, com a dupla finalidade de celebrar reflexivamente a memória e, à luz desta, aprofundar nosso conhecimento e compromisso com nossa identidade vicentina. Metodologicamente, esse caminho será construído em três momentos, os quais denominaremos de experiências de encontro e que serão assumidas na relação simbólica com lugares geográficos importantes para a história do carisma: Folleville, Châtillon e Paris. Em cada lugar, destacaremos um aspecto que, além de identifica-lo a gênese deste, será nossa chave de leitura para contextualizá-lo em nossos dias e em nossa missão educativa. Este estudo se destina a todos/as os/as Educadores/as Vicentinos/as, figurando como uma sugestão de subsídio para as reuniões pedagógicas e encontros institucionais.

1.        Folleville: um encontro de reconciliação

A pequena cidade de Folleville nos recorda o chamado “Sermão da Missão” proferido por São Vicente em 25 de janeiro de 1617. Ao atender em confissão um ancião da comunidade, tido pelo povo como um homem de bem, ele sensibiliza-se frente a dramática situação espiritual daquele pobre homem. Ao escutá-lo e lhe ministrar o sacramento da penitência, Vicente o ajuda a viver uma profunda experiência de reconciliação com Deus e consigo mesmo. Ao mesmo tempo, o acontecimento provoca em nosso Fundador a percepção da situação de abandono e vulnerabilidade espiritual do povo, especialmente daqueles que viviam no campo. Instigado por Margarida de Gondi, nobre senhora para cuja família contribuía na educação dos filhos e no atendimento das comunidades cristãs existentes em suas terras, Pe. Vicente exorta os/as cristãos/ãs de Folleville à confissão geral, com o intuito de que também estes/as pudessem fazer essa experiência de perdão e reconciliação. A adesão daquela comunidade foi tão significativa que necessitou da cooperação de outros padres e se espalhou por regiões próximas, revelando-se, assim, um acontecimento missionário expressivo. O dia 25 de janeiro, que na liturgia católica marca a festa da conversão de São Paulo, marca igualmente o início da Congregação da Missão, uma das três fundações em vida de Vicente de Paulo. Essa fundação que, estruturalmente, se inicia em 1625, tem no Sermão de Folleville a síntese de sua vocação missionária expressa em seu lema: Evangelizare pauperibus misit me, interpretado em relação à mensagem bíblica de Lc 4, 16ss: Ele me enviou para evangelizar os pobres.

Cientes de que esse fato necessita ser lido dentro de seu contexto próprio, tanto eclesial quanto sociocultural -  visto que nossos Fundadores não são seres atemporais, mas vivem e atuam dentro de uma conjuntura de mundo e Igreja específicas – o encontro de Folleville nos recorda da dimensão espiritual e humana do projeto educativo. Ao advogarmos uma educação integral, não podemos nos abster de considerar que a espiritualidade é um elemento imprescindível em nossa prática pedagógica e pastoral, especialmente para nós que assumimos uma proposta educativa confessional. Nesta lógica e contextualizando para a atualidade, precisamos pensar a espiritualidade para além de práticas e atos religiosos, os quais são formas de explicitá-la e cultivá-la. O cuidado espiritual é para nós hoje uma tarefa que assume a via da humanização, da percepção consciente e madura, pessoal e comunitária da dignidade e sacralidade da vida. O encontro com a reconciliação vivido pelo idoso de Folleville se repete nos encontros intra e interpessoais que educadores/as e educandos/as protagonizam.

Reconciliação é uma urgência de nossos dias! A vulnerabilidade espiritual de nosso tempo tem outras características e nomes comparada ao tempo dos Fundadores, mas ela nos pede uma igual resposta missionária que comporta escuta, cuidado mútuo, formação adequada e competente acompanhamento. Na escola nos deparamos com situações adversas e dramáticas dos mais variados tipos: situações de adoecimento mental, novas síndromes sendo diagnosticadas, níveis diferenciados de depressão e estresse, relacionamentos doentios, desajustes familiares, pressão social, entre tantos outros. Eles não se situam somente em relação aos/às educandos/as e suas famílias, mas atingem também os/as educadores/as. É preciso e urgente despertar a escuta reconciliadora que se dá na oportunização de projetos e atividades que integram e harmonizam os diferentes saberes, onde o conhecimento científico é assumido como instrumento e não finalidade do processo educativo.

Nessa perspectiva, as tradições religiosas possuem um contributo ímpar a oferecer. Por sua identidade confessional, a Escola Católica pode e deve colocar a serviço da comunidade educativa seu patrimônio espiritual, teológico e pastoral, situado tanto no âmbito sacramental e litúrgico, quanto na riqueza de sua reflexão humanística, moral e sociocultural. Em diálogo e cooperação fecunda com a confessionalidade, as demais confissões cristãs e tradições religiosas presentes no ambiente escolar são chamadas a potencializar esse encontro reconciliador. Sabemos dos desafios que envolvem a pluralidade religiosa na atualidade, sobretudo em relação à emergência de fundamentalismos e intolerâncias, que contrastam com a indiferença e relativização de elementos estruturantes da experiência religiosa. Quem sabe, sejam as próprias religiões as mais necessitadas de um encontro de reconciliação. Contudo, cremos que a escola é um campo fértil para reconciliar a diversidade, integrar a pluralidade, empoderar pessoas, processos e relações. Nesse aspecto, entendemos que toda espiritualidade tem uma dimensão ética e social que encontram na prática pedagógica um campo hermenêutico e operacional precioso.

2.      Châtillon: um encontro de compaixão

No mesmo ano de 1617, em 20 de agosto, um novo acontecimento marca a vida e o ministério de Pe. Vicente. Folleville despertou-lhe para um novo modo de perceber e assumir sua missão como padre; o primeiro encontro de reconciliação aconteceu entre ele e a autêntica motivação de sua vocação, outrora desfocada. Ele que, em sua juventude, vira na vida eclesiástica uma experiência de segurança, distinção e regalias, sente-se impelido rever o modo e o espaço como desenvolve seu ministério. Resolve sair dos ares palacianos dos De Gondi, e passa a atuar como pároco na pequena e pobre cidade de Châtillon-les- Dombes, hoje Châtillon-sur-Chalaronne. No dia referido anteriormente, ao se preparar para presidir a missa, Vicente é informado por uma mulher da comunidade – a Senhora de La Chassaigne -  sobre uma família inteira que estava doente, de modo que seus membros estavam impossibilitados de cuidar uns dos outros. Compadecendo-se dessa situação, nosso Fundador aproveita o momento da pregação para comunicar esse caso aos/às seus/suas paroquianos/as e exorta-os/as a fazer algo em prol da família. A resposta dada por eles surpreende o próprio santo. As senhoras da comunidade se reuniram, organizaram provisões e as levaram até a família. Quando, no mesmo dia, se dirige à casa dos enfermos atendidos para visitá-los, Pe. Vicente se depara com um grande número de mulheres que iam e vinham, bem como tantas outras que estavam junto à família. Sua constatação é clara: “eis aí uma grande Caridade, porém, desorganizada”. Desta experiência surgem as Confrarias da Caridade, formada por senhoras que dispunham de seu tempo e recursos para atender os pobres. Esta é a primeira fundação de Vicente de Paulo, reunida pela primeira vez em 23 de agosto e erigida oficialmente em 08 de dezembro de 1617. Hoje é conhecida internacionalmente como Associação Internacional de Caridades (AIC). As Confrarias se espalharam rapidamente pela França. Recordamos que uma das primeiras contribuições de Luísa de Marillac nas iniciativas de São Vicente foi a animação e formação destas Confrarias. Na esteira do trabalho realizado pelas Damas, se organizou a atuação das primeiras Filhas da Caridade, fundação de Luísa e Vicente em 1633.

Identificamos Châtillon como um encontro de compaixão porque é esta a atitude de fundo da experiência lá vivida. No relato que faz do episódio, nosso próprio Fundador expressa o teor de empatia vivida: “Isto me tocou sensivelmente o coração” (SVP – Coste IX, p. 243). A ação solidária empreendida por Vicente e pelas senhoras é antecedida por uma sensibilização profunda pela situação daquela família, e é uma sensibilidade que brota da fé. Duas respostas complementares podem ser identificadas: a) é preciso fazer algo - iniciativa das senhoras ao organizar provisões e assistir a família; b) mas, também, é preciso que esta ação tenha organicidade e continuidade, caso contrário será apenas paliativa, não transformando a realidade. Assim, essas duas disposições – ação e organização – traduzem de forma prática e operativa a compaixão. Na concepção própria de Vicente, falamos aqui do amor afetivo e do amor efetivo. Descrever Châtillon na perspectiva da compaixão nos ajuda a buscar os fundamentos da caridade vicentina. Obviamente o contexto socioeclesial de nossos Fundadores era distinto do atual. Contudo, algumas percepções do fato originário nos são válidas. Destacamos duas.

Primeiramente, observamos que tanto em Folleville quanto em Châtillon, os acontecimentos têm uma dimensão litúrgica: Vicente de Paulo em ambos os lugares está com a comunidade, celebrando, e é neste momento orante, que suas palavras de exortação à reconciliação e à compaixão são proferidas. Temos aqui uma primeira característica: a caridade está associada à vida da fé, à espiritualidade, aos valores e práticas religiosas. Ao mesmo tempo em que nos recorda o caráter celebrativo da ação – o que constitui uma resposta ao pragmatismo exacerbado que podem ser encontrados dentro dos próprios espaços religiosos – esse elemento nos demonstra que a fé professada no templo precisa ressoar na fé professada no tempo, ou seja, na história, nas opções, práticas e relações cotidianas. É o amor a Deus traduzido no amor ao/à outro/a, sobretudo aquele/a que mais sofre. Para o/a vicentino, a caridade não é filantropia, nem um mero ato de humanismo; é elemento constitutivo de sua experiência de fé e condição inegociável de sua missão, pessoal e comunitária.

Em segundo lugar, lançamos nossa atenção para o papel importantíssimo de duas personagens que, infelizmente, correm o risco de passar despercebidas. São duas presenças femininas – a Madame de Gondi, que exortou Pe. Vicente a proferir uma homilia sobre a reconciliação, e a Senhora de La Chassaigne, que o procurou antes da missa para lhe informar da família doente. São mulheres de atitudes, de coragem, de visão, de modo que, obstante a conjuntura da época de preconceito contra a mulher, a história fez chegar a nós seus nomes. Sabemos pelos escritos da importância que Madame de Gondi teve na estruturação, financiamento e expansão da Missão. Da mesma forma, intuímos que a Sra. de La Chassaigne esteve presente nas idas e vindas daquele dia 20 de julho, e na organização posterior das Confrarias; encontramos seu nome na ata de Fundação da primeira Confraria. Olhamos para essas duas mulheres e aprendemos que a caridade não é voo solo, projeto pessoal ou plano estratégico, mas é movimento de pessoas, de comunidade. O papel de percepção da realidade e mediação que elas tiveram foi fundamental. Associado ao dom da palavra e da reflexão de Vicente foram transformadores. São dons, tarefas, sensibilidades e funções diversos, mas convergentes para um mesmo horizonte.

Ao interpretarmos essas duas características em relação ao projeto educativo, percebemos que extraímos delas intuições importantes. Como educadores/as somos convictos/as do papel transformador que a educação possui. Uma sociedade que não a valoriza é doente e propaga, por suas condutas e decisões, o vírus da alienação, do senso comum e da ignorância que serve à mesa da avareza, do egoísmo e desigualdade. A educação é antídoto poderoso contra a enfermidade dos projetos pessoais e coletivos que não levam em conta o bem comum, a dignidade da pessoa e da Criação. E isso não é tarefa de um dia; é um remédio artesanal, de doses diárias, cuja essência convive com a ameaça de, também ela, ser instrumentalizada por uma “medicina” de interesses ambíguos, que se esquecem que a cura é gratuidade e dom, e não um negócio. Nós não temos um púlpito como Vicente de Paulo para pregar. Contudo, temos o chão sagrado da sala de aula, de nossos ambientes de trabalho e dos caminhos que estão para além da escola, como espaços a partir dos quais exortarmos a comunidade educativa e a sociedade a agirmos juntos/as em prol de causas e projetos que resgatem e promovam a vida. Da mesma forma, a escola é canteiro e celeiro da diversidade de dons, lugar para cultivo e partilha da beleza da pluralidade que não ignora as diferenças, mas as reúne em torno de um mesmo ideal. Cada pessoa que nela atua contribui a partir de seu ser e de seu trabalho para edificar o edifício da caridade afetiva e efetiva, do mesmo modo que é convidada a uma permanente disposição de aprendizado e atualização dos fundamentos que sustentam essa construção.

3.      Paris: um encontro de comunhão

Não atribuímos à capital francesa um acontecimento especial, mas nos referimos a ela como o lugar onde se desenharam traços fundamentais da estruturação e difusão do carisma. Por isso, a inserimos em nossa reflexão a partir da lógica que acenamos anteriormente, ou seja, os desmembramentos oriundos de Folleville e Châtillon. Paris foi o lugar de maior permanência dos Fundadores; de Luísa de Marillac, é a cidade de origem e onde viveu grande parte de sua vida; quanto a Vicente de Paulo, chega a ela pela primeira vez em 1608 e, depois de transitar em outros lugares, volta para lá no final do ano paradigmático de 1617. Contudo, residir em Paris não significa para nossos Fundadores que tenham suas mentes, projetos e passos confinados a este lugar. Ela é a cidade dos contrastes, o centro do poder que convive com a contradição da miséria e do abandono de sua gente. Paris é, para Vicente e Luísa, o lugar estratégico onde instalam o telescópio da caridade que os permite olhar longe e ampliar seu campo de presença e ação. Não é ponto de chegada, mas o lugar da intensidade das “idas e vindas”, intuídas por Luísa, testemunhadas por ambos.

Paris é o lugar de decisões e articulações importantes para o carisma. Foi nesta cidade, no bairro de São Vítor, naquele 29 de novembro de 1633, que Santa Luísa reuniu o primeiro grupo de camponesas que queriam viver unicamente para servir Jesus Cristo nos pobres, e que deu origem à Companhia das Filhas da Caridade. É neste endereço que, periodicamente, Vicente lhes dirigia uma conferência a fim de configurar o espírito e ação destas jovens à caridade a que foram chamadas. Paris assistiu, também, as intensas negociações para a aprovação da Congregação da Missão, o zelo de Vicente na formação dos seminaristas e na reforma do clero, a qual teve nas “Conferências das Terças-feiras” uma expressão concreta. É na capital que ele obtém seu título de bacharel em Direito. Paris assistiu Vicente não se conformar com o impacto das obras que fundou, mas ser colaborador e pastor espiritual das Irmãs da Visitação, missão que lhe foi confiada pelo amigo São Francisco de Sales.

Para além do âmbito religioso, ou a partir deste, Paris nos apresenta a influência política, econômica, social de nosso Fundador, seus diálogos com a nobreza e com o alto clero, intercedendo pela cessação de conflitos, pelos interesses dos pobres, angariando e distribuindo recursos entre estes, participando de espaços decisórios, como o Conselho de Consciência. Desta cidade, Vicente e Luísa assistem, ainda em vida, o envio de seus filhos – Padres Lazaristas e Filhas da Caridade – para além das fronteiras da França. Tão intensa quanto é a convicção de que as obras que empreendem são dom de Deus e que é a Providência quem por primeiro as conduz, é o empenho que demostram em cooperar com a ação divina. Paris é o laboratório do amor afetivo e efetivo, onde ele é acalentado, acreditado, testado, pois não se trata de uma história estática. Como filhos de seu tempo, os Fundadores e os que seguem suas iniciativas também convivem com a contradição e com o limite.

Assim, Paris é lugar de comunhão no sentido de que nela contemplamos como que uma síntese da amplitude da obra vicentina, como também percebemos que ela é fruto de muitas mãos, e que não pode ser lida desconectada da realidade sociocultural e eclesial. Paris nos recorda que a caridade não é um ideal platônico, não é amadora, nem improvisada. É uma realidade histórica, assumida na perspectiva da fé, que envolve pessoas, estruturas, recursos, formação. Para nós que acompanhamos processos educativos, sejam eles no âmbito formal, popular ou eclesial, Paris é o lugar do diálogo propositivo, da alteridade nas relações, da empatia com os dramas do cotidiano, sobretudo dos pobres, e do compromisso em mover e articular estruturas que promovam a vida e a dignidades destes. Neste século XXI, Paris é o lugar da constatação das urgências da Criação, da natureza e da humanidade, na lúcida percepção que é impossível desconectá-las. Somos um todo e tudo está interligado, como diz o conceito de Ecologia Integral da Laudato Si’.

Para nós educadores/as, o encontro de comunhão ao qual este lugar nos convida é um convite a romper com toda pretensão egoísta e escandalosa de fazer do conhecimento um produto a ser vendido, e não um dom a ser partilhado. É a resistência, com consciência e competência, frente a mercantilização e descartabilidade da vida, das relações, dos recursos da Terra.

Considerações finais

Esse itinerário pedagógico entre Folleville, Châtillon e Paris é um mergulho naquilo que há de mais original e fecundo da vida de nosso carisma. Os breves acenos aqui apresentados certamente serão enriquecidos pela ressonância da reflexão e partilha que construiremos juntos/as. Revisitar nossas fontes é condição para não perdermos de vista o horizonte para o qual rumamos, cujo caminho é para nós ladeado pela inspiradora e desafiadora paisagem da educação. Reconciliação, compaixão e comunhão são nosso método avaliativo mais eficaz e permanente. Na esteira do testemunho de tantos que nos precederam, desejamos que este ano jubilar revigore e impulsione nossa missão educativa, na certeza de que ela é dimensão integrante e imprescindível da Caridade que nos foi legada como dom e tarefa.

 

Referências:

BÍBLIA. Português. A Bíblia. Tradução Ecumênica. São Paulo: Loyola/Paulinas, 1995.

CASTRO, J. P. São Vicente de Paulo. Petrópolis: Vozes, 1942.

COLLUCIA, G. Espiritualidad Vicenciana, Espiritualidad de la Accion. Salamanca/ES: CEME, 1979.

COMPANHIA DAS FILHAS DA CARIDADE. Circulares da Nossa Mãe Ir. Guillemin. (1963-1968).

______ Santa Luísa de Marillac. Correspondência e escritos. São Paulo: Editora Legis Summa.

COSTE. P. Conferências às Filhas da Caridade. Lisboa/Portugal: Portinho Cavalcanti Editora, 1960. (Tomo IX).

FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si’. Sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.

IBÁÑEZ, J. M. Vicente de Paulo. A fé comprovada no amor. São Paulo: Paulinas, 1996.

MALONEY, R. O Caminho de Vicente de Paulo. Curitiba: Gráfica Vicentina, 1998.

POGGIOLI, M. D. Contra as pobrezas, agirmos juntos. Curitiba: ICQ, 2016.

TEIXEIRA, V. A. R. Impelidos pela Caridade, Peregrinos na Missão. Perfis biográfico-espirituais de São Vicente de Paulo, Santa Luísa de Marillac e Padre Antônio Portail. Belo Horizonte: O Lutador, 2010.